Lady D'Arbanville

"On joue le vrai jeu... Quand on n'a plus rien à perdre."

2.8.06

Um palhaço no poder

Já que este blog anda em uma onda gaulesa, uma história para vocês.

Era uma vez um humorista francês chamado Coluche (1944-1986), um sujeito com um coração de ouro e uma boca de latrina. Tinha um humor bem grosseiro, ar de criança e idéias geniais para quase tudo. Fundou os “Restos du Coeur”, ou restaurantes do coração, que doam refeições aos mais pobres durante o inverno (entre outras atividades). Em 2005, foram 67 milhões de refeições, tudo sustentado sem nenhuma ajuda governamental, somente com doações e com o dinheiro de shows promovidos todos os anos desde 1986.

Porque foi idéia do Coluche, esses shows não tem nada de cândido ou bonzinho: para começar, o grupo (que reúne os melhores cantores da chanson francophone) até hoje é conhecido como “Les Enfoirés” – algo como “Os FDPs". Os artistas doam os direitos de imagem e autorais e fazem, ano após ano, uma zona memorável com música e comédia – “sem ideologia, discurso ou conversa fiada”, como diria o comediante. Já que é para pedir dinheiro, então a idéia é dar algo realmente memorável em troca, sem apelar pro sentimentalismo barato.

Pois bem. Em 1980, esse Coluche aprontou algo inimaginável: candidatou-se à Presidência da República. A princípio de brincadeira, sugestão de um amigo - afinal o comediante era maluco, mas não tanto assim. Ninguém levou a sério até a primeira pesquisa de intenção de votos, em dezembro de 1980, quando houve pânico entre os candidatos sérios: Coluche tinha 16% das intenções de voto! Ele podia ir parar no segundo turno com François Miterrand! Que vergonha pra república!

Diante dos fatos, o comediante começou a levar a campanha a sério e, obviamente, logo vieram as represálias: censura não-declarada nas rádios e TVs estatais, ameaças de morte, descrédito. Em abril de 1981, ele se viu forçado a abandonar a eleição. “Prefiro acabar com a campanha porque ela está começando a me encher”, foi a única explicação que ele deu aos jornalistas. Miterrand ganhou a eleição e o resto é história. As ameaças de morte só foram descobertas anos depois da morte do humorista - ele mesmo nunca mais abriu a boca sobre o assunto.

O que é que essa história tem a ver com os dias de hoje?

Bom. Em 1981 era um palhaço concorrendo na eleição. Em 2006, por aqui, palhaço com candidatura é o que não falta - infelizmente nenhum deles assumido como o Coluche. :(

1 Comments:

Anonymous LM said...

Genial. Concordo em gênero, número e candidatos - eu vou votar no Ornitorrinco!

2/8/06 17:32  

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